Natal e Epifania entre Oriente e Ocidente
de Edoardo Arborio Mella | 5 de Janeiro de 2012 – TerraSanta.net
È bom recordar antes de tudo, que a época do grande desenvolvimento da liturgia cristã teve inicio no IV século, depois da chamada ‘paz constantina’. É neste século, marcado por uma forte criatividade litúrgica, que se forma o ciclo do Natal e da Epifania: até então todo o culto era concentrado sobre o mistério pascal.
No ocidente os primeiros sinais da presença de uma festa de Natal, celebrada no dia 25 de dezembro, são da primeira metade do IV século. A festa era celebrada em Roma e passou imediatamente ao restante da Itália, Espanha e parte da África, onde se recordava no mesmo dia, a adoração dos reis magos e o massacre dos inocentes. A data de 25 de dezembro depende provavelmente da festa pagã de Solstício de inverno que começava na noite de 24 e 25 de dezembro. Há um século esta festa tinha se difundido em Roma, por causa do culto persa de Mitra, identificado com o sol, e com o nascente culto ao imperador: era a festa do sol que renascia e recomeçava a crescer depois do período invernal das jornadas. Cristo foi anunciado como o verdadeiro sol da justiça que veio ao mundo, num simbolismo bem compreensível a quem estava plasmado por aquela cultura.
Temos notícia de uma outra data: o teólogo e filósofo cristão, Clemente Alexandrino, faz referência a uma tradição presente na Palestina e no Egito no início do III século, um século antes dos primeiros atestados de 25 de dezembro no Ocidente. Esta datava o nascimento de Jesus no dia 20 de maio; outras notícias das áreas palestina e egípcia colocam em torno a esta data a memória da fuga para o Egito e o massacre dos inocentes. De qualquer forma dois séculos depois da afirmação de Clemente Alexandrino os sinais desta memória de 20 de maio desapareceram e ganhou força como o dia do nascimento de Jesus, principalmente no Oriente, o dia 6 de janeiro, a Festa da Epifania.
Eis depois a segunda data- chave deste tempo litúrgico, o dia 6 de janeiro. Incerta é a origem da data. Quanto ao nome “ Epifania”, indica uma origem oriental: é o termo grego que significa “Manifestação”. A festa já era conhecida na região da Síria na segunda metade do III século e depois no fim do IV século na Palestina e no Egito como celebração da manifestação de Jesus na sua encarnação, isto é do seu nascimento e da adoração dos magos. No Egito e na Síria se recordava também, talvez por decorrência de um precedente rito pagão sobre as águas, o batismo de Jesus, e algumas vezes o milagre de Caná. Aconteceu, todavia, que depois na Síria no período constantinopolitano, no final do IV século, introduziu-se o Natal ocidental no dia 25 de dezembro, o que provocou uma mudança de significado na festa de 6 de janeiro, que se tornou memória do batismo de Jesus em todo o oriente.
Curiosamente parece que o dia 6 de janeiro como memória da Natividade estava já presente na segunda metade do IV século também na França, única região ocidental. Mas já na primeira metade do V século além das celebrações da memória do batismo e o milagre de Caná com os três sinais que ainda hoje vêm cantados nas antífonas do Benedictus e do Magnificat, foi acrescentada também a celebração da Epifania.Assim como o Natal entrou no Oriente, no dia 25 de dezembro, assim a Epifania entrou no Ocidente, no dia 6 de janeiro. Pela falta de muitos dados não é possível dizer com precisão as passagens e suas mudanças.
O visitante da Terra Santa pode facilmente identificar a importância que estes fatos têm para a Igreja local. As liturgias católicas não reservam surpresas aos católicos. Particularmente a Missa do Natal celebrada pelo patriarca latino na igreja dos franciscanos em Belém, que tem um caráter oficial.
Quanto às celebrações das Igrejas orientais, é necessário ter presente dois fatos. O primeiro é que, pela falta da reforma do calendário Juliano da parte das Igrejas orientais, o calendário litúrgico ficou atrasado treze dias em relação ao nosso. Assim o dia 25 de dezembro corresponde ao nosso 7 de janeiro. As Igrejas orientais somente por motivo de calendário celebram o Natal quase em concomitância com a nossa festa da Epifania. No dia 6 de janeiro (que para eles é o dia 24 de dezembro) ocorre, em Belém, a grande festa com o ingresso dos chefes das Igrejas orientais na Basílica da Natividade. A máxima solenidade é reservada ao ingresso do patriarca e dos bispos ortodoxos com acompanhamento de tambores e gaitas de foles. Seguem durante a noite as liturgias, celebradas pelas Igrejas nos respectivos altares. O dia 6 do calendário Juliano corresponde ao dia 18 do nosso rito latino. Enquanto os ortodoxos celebram a Epifania, para eles o batismo de Jesus, cada Igreja vai ao rio Jordão.
Um segundo fato que é preciso ter presente é que no quadro que foi apresentado existe uma exceção: A Igreja armênia. Está presente, em Jerusalém, desde o inicio da sua existência e erradicada na própria tradição litúrgica mais antiga, não acolheu a inserção do dia 25 de dezembro no calendário; e quando depois as duas Igrejas se separaram definitivamente, manteve por um período: conservou a Epifania como antigo significado da memória da Natividade, e como desejo de fidelidade a própria tradição monofisita valorizou a memória do batismo, já presente antigamente. Reiterando assim liturgicamente em uma única festa, uma única natureza ( porque é esse o significado do termo monofisismo) de Jesus homem manifestado no nascimento em Belém e de Jesus como Deus manifestado na voz celeste durante o batismo. A legitimação do costume se acrescentou com o tempo uma confirmação histórica: o batismo de Jesus é celebrado no mesmo dia do nascimento, exatamente trinta anos depois. Para nós uma consideração exegética de Lucas 3,21-23 um pouco forçada. Como conseqüência de tudo isso é que a Igreja armênia está totalmente ausente da festa oriental do Natal de Belém, e que por ocasião da festa da Epifania não celebra no Jordão e sim em Belém, onde entre a tarde e a noite celebram juntos, na basílica, os dois mistérios.


